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A lógica

Luis Fernando Verissimo

Hoje, o Apostador reconhece que deveria ter desconfiado do homenzinho que lhe vendeu a máquina do tempo. Na hora, ele só pensara na vantagem que teria um apostador que fosse transportado para o futuro e pudesse ler, nos jornais, o resultado da loteria, o azarão que dera no jóquei, a zebra que dera no futebol. Com a máquina do tempo, ele poderia acertar a Sena todas as semanas! Era vantagem demais. Ele deveria ter desconfiado.


O homenzinho também vendia pomadas afrodisíacas que deixavam qualquer homem irresistível às mulheres, pinturas do Van Gogh autênticas com selo de garantia, camisas Lacoste tão falsas que o jacarezinho aparecia piscando um olho - mas o Apostador não desconfiara. Estava tão animado com a perspectiva de só apostar no certo que comprara a máquina do tempo sem pensar. Depois, para se justificar, o Apostador disse:

- Na verdade, apostei que a máquina funcionaria.


A máquina não funcionou. Ou funcionou, mas não como o homenzinho prometera e o Apostador esperava. Quando o Apostador entrou na máquina e apertou o botão que o transportaria no tempo, ouviu um estrondo, e quando viu estava não no futuro, mas no passado. Nos tempos bíblicos. Notou que eram bíblicos porque havia muita poeira e todo o mundo falava engraçado.

- E para o cúmulo do azar - contou - caí no meio de uma batalha.

- De uma batalha?

- É. Lá estava eu, num campo de batalha, entre dois exércitos prontos para lutar. Um liderado por um gigante, outro por um garoto.

- O que você fez?

- Me misturei com a torcida para assistir.


No meio da torcida, o Apostador não demorara a encontrar pessoas dispostas a apostar.

- Mas aceitaram o seu dinheiro?

- Como não conheciam o real, acharam que valia alguma coisa.

Aceitaram.

- Que sorte! Foi como se você tivesse caído no Maracanã, antes de começar a final da Copa de 50. Com a informação que tinha, era só apostar no Uruguai e você também ficaria milionário.

- Mas eu não fiquei milionário. Perdi tudo.

- Mas como?

- Resolveram que a batalha seria decidida num duelo entre os líderes dos dois exércitos. O gigante contra o garoto. O gigante armado até os dentes e o garoto só com um estilingue. Apostei no gigante, claro.

- O quê? Você apostou no Golias contra o David?!

Então, o Apostador deu um tapa na testa e exclamou:

- David e Golias! Como foi que eu não me lembrei?

Apostara na lógica e perdera tudo.


Mas, filosofou o Apostador, fora melhor assim. Se ganhasse a aposta seria pago com mirra, incenso e 117 ovelhas, que não caberiam na máquina.


Domingo, 15 de março de 2009.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.